Um filme produzido pelos Guaranis da Aldeia Ara Poty, na Terra Indígena de Toldo Chimbangue, está sendo distribuído em festivais de todo o país. Ivá Jerá (A Criação do Universo) foi selecionado por um edital de audiovisual da Secretaria de Cultura de Chapecó, com recursos federais da Lei Paulo Gustavo. O cineasta indígena Werá Alexandre recebeu R$ 70 mil para a produção de 25 minutos. Com o recurso pode contratar mais profissionais e equipamentos para o audiovisual. Mas a maioria da equipe, inclusive os atores, são Guaranis. Inclusive a atriz principal, Juliana Ferreira, que tem o nome indígena que dá título ao filme.
Foi uma experiência incrível participar de um filme, ainda mais em minha homenagem. Também é importante mostrar e valorizar a cultura indígena, disse Juliana, com certa timidez.
Ela é irmã do diretor e foi escolhida para retratar uma situação vivida pelos jovens indígenas, que é a atração pelo mundo moderno.
O filme retrata uma adolescente que vive em dois mundos paralelos, que acredita pertencer ao mundo não indígena, mas que depois se volta para a sua cultura, para o mundo Guarani. É uma obra híbrida, que mistura realidade com ficção. E que difere da maioria das obras indígenas, que é em formato de documentário. Nós mostramos que o índio tem acesso à tecnologia, mas que isso não significa perder sua cultura, disse Werá.
Ele ressaltou a importância do filme ter sido produzido pelos próprios indígenas. Os filmes produzidos por não indígenas trazem uma visão estereotipada. Nós, os cineastas indígenas, podemos trazer a nossa visão, como a gente vê o mundo, explicou.
Werá, que nasceu em Misiones-ARG, despertou para o cinema quando ainda morava numa aldeia em São Miguel das Missões-RS, por volta dos 14 anos. Ele fez curso com a ONG Vídeo Nas Aldeias e depois foi para São Paulo, aprender montagem e finalização no Centro de Trabalho Indigenista. Já dirigiu dois filmes, Guarakaja -O Dono da Lontra (2012) e Ayvu Nhexyrõ No Passo das Palavras (2022). Também participou da montagem de cerca de dez filmes.
Atualmente está produzindo outro filme Kanhangue (As Mulheres), que já teve o roteiro aprovado para laboratórios de capacitação no festival de Morelia-MEX, DOC-SP e Festival de Bagé-RS.
O cinema é uma forma de reafirmar nossa resistência e luta pelo nosso direito de existir, concluiu Werá.